⚖️ Zero. Eu ouço os dois lados — e fico louco

    Pessoal. Sobre quatro anos a viver quando os mais próximos exigem que escolhas um lado.

    «Um país não é um clube de futebol.»

    Podes amá-lo e não aprovar muito do que nele acontece.

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    No meu círculo há quem apoie totalmente a Rússia em tudo, e quem a rejeite totalmente. Antes, estas mesmas pessoas conviviam normalmente. São lúcidas e inteligentes — mas têm visões radicalmente diferentes. Durante muito tempo, isto provocou-me uma verdadeira dissonância cognitiva.

    Este texto é sobre como vivo com isso há quatro anos.

    Para saberes de onde falo: sou pelo meu país. Podes chamar-me patriota. Não é negociável nem é o tema deste artigo. Já decidi — e é precisamente por isso que tenho algo a dizer a quem discute à volta.

    Não tento convencer ninguém. Os ultra pró-governo dirão que sou «pouco a favor». Os ultra opositores — que sou «a favor de matar pessoas». Não tento agradar a nenhum dos lados. O que vem a seguir vai ser desconfortável.

    Primeiro. Os dois lados querem a mesma coisa

    Paradoxalmente, dos dois lados há um objetivo comum: justiça. Só que, por estarem em bolhas de informação diferentes e com dados de partida diferentes, tiram conclusões lógicas mas opostas. Ambos querem o bem do seu país, da família, dos filhos. Mas olham por fontes diferentes — e recebem respostas diferentes.

    E aí entra um princípio que um dia mudou a minha forma de ver o mundo:

    «O teu amigo é aquele que repara sobretudo nas tuas qualidades. O teu inimigo é aquele que repara sobretudo nos teus defeitos.»

    Transferido para um país: uns leem notícias negativas e veem a Rússia como um desastre e o Ocidente como um paraíso. Outros leem fontes pró-russas e veem o espelho. Cada lado só vê os defeitos do outro. E assim cada um se reforça na sua certeza.

    Segundo. Amar não é concordar com tudo

    Sou em geral a favor de uma oposição sistémica, e há coisas na Rússia que me incomodam pessoalmente:

    • O subdesenvolvimento das regiões e o fosso entre Moscovo e o resto do país.
    • O fecho aos intercâmbios científicos e culturais internacionais — afeta o futuro.
    • A fuga de cérebros, que o Estado deixa partir sem saber reter.
    • O culto do dinheiro como medida principal de sucesso.

    Não concordo com isto. E sou cidadão deste país e patriota. Isso não me torna traidor — torna-me não indiferente.

    «Ou totalmente a favor, ou totalmente contra», agora imposto de todos os lados, é a maior armadilha. Um país não é um clube de futebol. Podes amá-lo e desaprovar muito do que nele acontece ao mesmo tempo.

    Pergunta simples: distingues país e Estado? Ou religião e fé? Se para ti é a mesma coisa — má notícia. Vão vender-te uma realidade simplificada. E provavelmente vais comprá-la.

    Terceiro. Uma história de infância

    Não é analogia nem argumento. É um sentimento.

    Tinha 7 anos quando os meus pais se separaram. Antes e depois do divórcio, gritavam um com o outro com as piores palavras. O meu pai dizia-me que mãe horrível eu tinha. A minha mãe — o mesmo ao contrário. E exigiam que eu escolhesse.

    E eu amava os dois. Quando as pessoas mais próximas de ti se insultam e te forçam a escolher um lado — isso, literalmente, leva-te à loucura.

    Hoje, quando ouço a conversa «oposição contra patriotas», sobe a mesma sensação. Não como argumento lógico, mas como memória do corpo. Embora sejam todos cidadãos do mesmo país.

    Quarto. O que me incomoda nos dois lados

    Ser pago por jornalismo é normal. O que não gosto é quando a fonte de financiamento está escondida do público. É uma questão de transparência.

    Outra coisa que me chateia: cantores, atores e escritores tornam-se porta-vozes dos dois lados. Os seus fãs não percebem que ser bom numa coisa não te torna automaticamente perito em tudo. Aqui já cada segunda pessoa virou cientista político e geopolítico. E os media têm culpa — chamam estas pessoas com gosto para debater temas em que não sabem mais do que qualquer um na cozinha.

    Oposição radical

    80% é «está tudo mal». Na melhor das hipóteses 20% de propostas concretas e realistas. Toneladas de ódio sem uma única proposta útil. Isto não move o mundo a lado nenhum.

    Pró-governo radicais

    Qualquer crítica ao poder = traição ao país. O mesmo erro, ao espelho. Uma crítica honesta é contributo para o desenvolvimento.

    E dos dois lados há a mesma doença: não querer ouvir.

    É normal emigrar? Sim. É a tua vida. Ficar apesar de tudo? Também. Criticar o teu país sem radicalismo? Sim. Defendê-lo? Também. Um país vivo nasce desta diversidade.

    Quinto. Um teste simples para propaganda

    Se um meio de comunicação, mês após mês, só mostra um país pelo lado positivo, é propaganda. Se só mostra o negativo, também é propaganda. Não quer dizer que a fonte minta. Quer dizer que te mostram um só lado da moeda. Pega na moeda, vira-a.

    Uma boa conversa é quando se convida não só uma posição mas também a contrária — e se deixa que discutam por regras. Nas nossas plataformas públicas, isto quase não existe em nenhum dos lados. É um grande problema.

    Ferramenta que uso (sem links, procura tu): ground.news. Mostra como o mesmo evento é tratado por media de esquerda, de direita e de centro. Pega numa notícia que hoje te perturbe e olha-a por meios diferentes. Em dez minutos, a imagem muda.

    Sexto. Uma nova linha de divisão

    Hoje, já não divido as pessoas entre «patriotas» e «oposição». Divido-as por outro critério: quem aceita ouvir o outro ponto de vista e quem se fechou na sua bolha de informação.

    Se só vês o mundo pelo prisma «nós contra eles», perdes uma parte enorme da realidade. O mundo torna-se plano, confortável — e errado a 100%. A ciência avança precisamente graças ao ceticismo científico: questionar teorias estabelecidas é a norma.

    Dos dois lados das barricadas há pessoas que querem o bem. Provavelmente com os mesmos valores no topo. Mas estão em fluxos de informação diferentes — e por isso odeiam-se. E nunca nos conseguimos encontrar.

    A imagem «nós contra eles» tem uma grande vantagem: dá energia. Trocá-la por «é complicado» — há menos energia. É o preço de sair da dicotomia. Para mim, é um preço justo.

    Não recuses ao outro lado, à partida, humanidade e sentido. Quando te permites ouvi-lo, o teu próprio olhar fica mais profundo. Não mais fraco. Mais profundo.

    Estamos no mesmo caminho se duas coisas ressoam contigo. Primeira: queres um futuro digno para o teu país e para as próximas gerações. Segunda: estás disposto a ouvir quem não pensa como tu. Se as duas ressoam — bem-vindo.

    Se pelo menos uma pessoa, depois disto, fizer uma pausa na próxima discussão e pensar «se calhar quem está do outro lado também tem a sua verdade», então valeu a pena escrever.

    Um abraço a todos. 🤗

    Diz-me nos comentários onde achas que estou errado.
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