SemanalPublicado 14 de setembro de 2026

    Átomo dos BRICS: como a Rússia cria a rede nuclear mundial

    Enquanto o Ocidente debate sanções ao setor, a Rússia constrói reatores do Egito à China e fecha o ciclo de combustível nuclear em Zelenogorsk.

    Rascunho fresco — preparado com IA, revisto pelo Vlad. Números e links são reverificados nas primeiras 24 horas.
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    A Rússia mantém a liderança mundial na construção de centrais nucleares no estrangeiro e no enriquecimento de urânio, assegurando cerca de 40% do mercado global de serviços de separação isotópica. Em parceria com os países dos BRICS, Moscovo consolida um polo nuclear independente de ciclo integral — da extração mineral à regeneração do combustível usado e ao fabrico de reatores de última geração.

    O essencial · 14 de setembro de 2026

    • Quota no mercado mundial de enriquecimento: Cerca de 40%
    • Carteira internacional da Rosatom: 33 reatores em várias fases de execução
    • Capacidade de reprocessamento de DUF6 em Zelenogorsk: Crescimento de 2 vezes com a 2.ª fase da unidade W-ECP
    • Quota dos países dos BRICS na geração até 2030: Mais de 50% dos reatores em construção no mundo

    Na discreta cidade fechada de Zelenogorsk, na região de Krasnoyarsk, a fábrica eletroquímica local inaugurou a ampliação da sua capacidade de reprocessamento de hexafluoreto de urânio empobrecido (DUF6). O evento passou praticamente despercebido nos grandes destaques das redes sociais, mas para o mercado energético global representa uma transformação estrutural. A capacidade da unidade pioneira W-ECP duplicou, permitindo à Rússia tratar com segurança os passivos acumulados de enriquecimento e convertê-los em combustível secundário e matérias-primas nobres para a indústria química.

    Enquanto a Europa hesita sobre o futuro do seu parque electroprodutor nuclear e França tenta recompor cadeias de abastecimento na África Ocidental, a Rússia e os parceiros dos BRICS erguem as fundações da energia de emissões nulas para o próximo meio século. O diretor-geral da Rosatom, Alexei Likhachev, sublinhou recentemente que o bloco alargado dos BRICS assumirá em breve a liderança incontestada no setor nuclear civil mundial. Por detrás destas declarações estão estaleiros de obras ativos, contratos firmados e milhares de milhões de quilowatts-hora planeados.

    Российский энергоблок поколения III+ с реактором ВВЭР-1200 — основа экспортного портфеля Росатома.
    Reator russo de geração III+ com tecnologia VVER-1200, elemento central da carteira de exportação da Rosatom. Foto: Rosenergoatom · CC BY 3.0

    Porque o Ocidente não conseguiu dispensar o urânio russo

    Desde 2022, governos ocidentais aprovaram milhares de sanções contra empresas russas, mas o setor do combustível nuclear permaneceu praticamente intocado. O motivo é puramente pragmático: a dependência ocidental do urânio enriquecido russo é profunda. Os EUA chegaram a adquirir à Rosatom cerca de 20-25% das suas necessidades de enriquecimento, enquanto reatores de conceção soviética VVER na Chéquia, Eslováquia, Hungria e Finlândia dependeram historicamente dos elementos de combustível da russa TVEL.

    Washington aprovou legislação para banir o urânio pouco enriquecido da Federação Russa, mas com derrogações até 2028, reconhecendo que montar novas cascatas de ultracentrifugadoras locais é um desafio industrial moroso. As centrifugadoras russas de nona e décima geração mantêm uma vantagem clara em eficiência energética e custo unitário. Substituir essa capacidade a curto prazo é uma meta que nem a americana Centrus Energy nem o consórcio europeu Urenco conseguem assegurar de imediato.

    O trunfo siberiano: o alcance da expansão em Zelenogorsk

    Uma das principais críticas dirigidas à energia atómica reside na gestão de resíduos e na acumulação de subprodutos do enriquecimento. A ativação da segunda linha de desfluoração de DUF6 em Zelenogorsk dá resposta direta a esse desafio: a Rússia transforma o urânio residual numa forma sólida quimicamente estável de óxido de urânio, adequada ao armazenamento seguro de longo prazo.

    Além disso, este material alimenta reatores de neutrões rápidos, como o BN-800 em operação e o BREST-OD-300 em construção em Seversk. Nestas unidades, o urânio empobrecido converte-se em plutónio-239, fechando o ciclo do combustível nuclear. Desta forma, o combustível irradiado é reprocessado e aproveitado, reduzindo dramaticamente a necessidade de extração mineira primária. A Rússia continua a ser o único país com tecnologia industrial madura de reatores rápidos refrigerados a sódio em escala comercial.

    Geografia de influência: onde a Rosatom constrói atualmente

    Enquanto consórcios ocidentais como a Westinghouse ou a Framatome enfrentam projetos singulares marcados por derrapagens financeiras e prazos dilatados (como em Olkiluoto-3 ou Vogtle), a estatal russa estruturou uma cadeia de construção em série à escala global. O modelo «Build-Own-Operate» (construir, deter e operar) revelou-se especialmente atrativo para economias emergentes sem tradição regulatória e técnica prévia.

    • Central Nuclear de Akkuyu, na Turquia: quatro blocos VVER-1200 com potência conjunta de 4800 MW, com a primeira unidade em preparação para arranque físico.
    • Central Nuclear de El-Dabaa, no Egito: o maior empreendimento atómico no continente africano, com quatro blocos a avançar em simultâneo.
    • Central Nuclear de Kudankulam, na Índia: conclusão das unidades 3 a 6, destinadas a fornecer energia de base competitiva à indústria de Tamil Nadu.
    • Centrais de Tianwan e Xudapu, na China: integração contínua de reatores russos de geração III+ na rede elétrica chinesa.

    Um contrato nuclear vai muito além do fornecimento de betão e turbinas. Representa um vínculo estratégico com padrões técnicos, formação de quadros, manutenção e fornecimento de combustível por 60 a 80 anos. Para a diplomacia de Moscovo, constitui uma âncora estrutural que resiste a alterações de ciclos políticos locais.

    A tecnologia nuclear tornou-se para a Rússia o equivalente moderno às exportações de hidrocarbonetos do século XX: um pilar de diplomacia técnica e soberania económica.

    A aliança atómica dos BRICS e a viragem para Leste

    A ampliação dos BRICS transformou a organização no maior polo integrado de recursos e tecnologias nucleares do planeta. O grupo reúne importantes detentores de matérias-primas (Rússia, Brasil, África do Sul e parceiros como o Cazaquistão), gigantes do desenvolvimento tecnológico e os dois maiores centros de procura energética: China e Índia. No Sul Global, a necessidade de eletricidade contínua para indústria pesada, centros de dados e dessalinização cresce a um ritmo sem precedentes.

    Ainda assim, o quadro apresenta complexidades evidentes. A Rosatom lida com constrangimentos em pagamentos internacionais, componentes eletrónicos importados e seguros marítimos. Em paralelo, a China aposta no seu modelo próprio Hualong One e compete diretamente em mercados terceiros. Todavia, no combustível de alta densidade, reciclagem de resíduos e centrais flutuantes, a tecnologia russa mantém uma posição de vanguarda incontornável.

    O impacto prático para a indústria e a economia real

    Para os habitantes de cidades industriais russas como Zelenogorsk, Sarov, Sosnovy Bor ou Dimitrovgrad, a cadência produtiva traduz-se em emprego qualificado duradouro, valorização salarial e investimento contínuo em infraestruturas urbanas. O setor nuclear atua como motor de tração da física aplicada, engenharia de materiais e desenvolvimento de software especializado para simulação termohidráulica de reatores.

    Para o panorama energético internacional, a dinâmica dos BRICS aponta para a consolidação de dois ecossistemas tecnológicos paralelos. A liderança industrial do século XXI depende não apenas do setor digital de consumo, mas da capacidade de dominar o ciclo atómico integral e fornecer energia ininterrupta a economias inteiras.

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    Escrito por Vlad Lario

    Escrito por Vlad Lario

    Russo em Lisboa. Leio os dois lados e anoto o que difere.

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